19 de outubro de 2026

Ler e escrever: o hábito que forma pensamento crítico e prepara para a vida

Na Rede Batista de Educação, leitura e escrita vão além da sala de aula: os estudantes são preparados com repertório sociocultural, de forma crítica e consciente

Entre telas, notificações e informações que mudam de minuto a minuto, ler e escrever continuam tendo um peso que a sala de aula sozinha não explica. É algo que molda a forma como crianças e adolescentes enxergam o mundo, organizam o que pensam e se posicionam diante dele. 

Na Rede Batista de Educação (RBE), isso aparece de jeitos diferentes conforme o estudante avança na Educação Básica. A coordenadora pedagógica do Colégio Batista Brasil Vila Velha, Ana Paula Grijó, diz que ler vai muito além de decodificar palavras: “É interpretar, compreender, relacionar-se com o que está ao redor. E esse processo mexe com o desenvolvimento intelectual, social e emocional do estudante como um todo”, pontua. 

O problema é manter esse interesse vivo ano após ano, porque ele raramente se sustenta sozinho, sem estímulo. Por isso, a escola investe em frentes variadas: biblioteca física, ferramentas digitais e projetos que colocam o estudante para pesquisar e debater de verdade. A SIB-ONU é um exemplo disso: nela, os estudantes assumem papéis diplomáticos e precisam se aprofundar em temas complexos antes de defender posições e propor soluções em grupo. A leitura, ali, deixa de ser tarefa e vira instrumento de argumentação. 

Segundo a coordenadora, uma pesquisa do Instituto Pró-Livro, a 6ª edição da “Retratos da Leitura no Brasil”, aponta um cenário preocupante em relação aos hábitos de leitura no país. O levantamento mostra que mais da metade dos brasileiros não leu nenhum livro, nem inteiro nem em partes, no período analisado, o que evidencia uma queda no contato da população com a leitura. 

O estudo também revela diferenças importantes entre faixas etárias e contextos sociais, indicando que o hábito de leitura tende a ser mais frequente entre os mais jovens e varia de acordo com fatores como escolaridade e acesso. Nesse cenário, o desafio de formar leitores se torna ainda mais relevante ao longo da trajetória escolar. 

“Percebendo essa realidade, a RBE incentiva os estudantes a se envolverem em atividades e projetos que estimulem a pesquisa, o debate, a criação e a explanação do pensamento sobre temas distintos. Além do uso da biblioteca física e tradicional, as turmas do Ensino Fundamental Anos Finais, por exemplo, fazem uso da Plataforma Árvore, que é uma biblioteca digital que atende ao estudante que nasceu e cresceu em meio aos dispositivos: tablets e computadores. Tais ferramentas alteraram as formas de comunicação, interpretação, interação e percepção do próprio ambiente social”, afirma Ana Paula. 

Lucas Moraes, professor de Redação e Produção Textual do Colégio Batista Mineiro BH – Floresta/Séries Finais, enxerga esse mesmo movimento por outro ângulo. Para ele, leitura e escrita funcionam como “janelas para o mundo”, capazes de tirar o estudante de uma postura passiva e colocá-lo em um lugar mais ativo diante do que vê e vive. 

De acordo com Lucas, quem lê amplia repertório e entra em contato com formas diferentes de pensar, o que acaba interferindo na forma como esse estudante constrói argumentos e se posiciona depois. Já a escrita é outra história: não vem de forma espontânea, precisa de treino. Ele compara com o esporte, que se desenvolve com repetição, erro, ajuste, nova repetição. “Com o tempo, o estudante passa a organizar melhor as ideias, escrever com mais clareza e sustentar argumentos com mais segurança. E isso não fica restrito à redação: aparece em outras formas de comunicação, até no jeito de falar no dia a dia”, afirma. 

“Eu diria que a diferença entre formar um estudante que apenas lê e escreve e um estudante crítico e consciente está no acesso que ele tem ao repertório sociocultural. Por isso, uma das preocupações do componente curricular de Redação e Produção Textual é sempre oferecer aos estudantes ferramentas culturais, para que eles tenham acesso a mais visões de mundo, a mais possibilidades argumentativas, e consigam enxergar a realidade com mais clareza, sabendo diferenciar os discursos e as narrativas que existem no mundo”, pontua.  

O educador ainda complementa que um estudante que tem mais acesso a bens culturais e consome mais repertório sociocultural tende a se tornar um leitor crítico e consciente, e não apenas um leitor passivo, um estudante que só lê e escreve. 

Na biblioteca, esse processo se complementa. De acordo com a bibliotecária da Biblioteca Central, da Rede Batista de Educação, Cleide Pimentel, o espaço vai além de incentivar a leitura – ali também se forma senso crítico, repertório social e consciência cidadã. “O contato frequente com livros ajuda o estudante a questionar, comparar, formar opiniões mais consistentes”, disse. 

“Percebo mudanças concretas com o tempo: mais concentração, mais facilidade para escrever, mais segurança para argumentar. Mas nada disso é automático, depende de ambiente, de estímulo, de experiências que tornem a leitura algo prazeroso. Daí a importância de rodas de leitura, clubes do livro e momentos de mediação dentro da rotina escolar”, afirma a bibliotecária. 

Entre os próprios estudantes, esse efeito aparece de forma bem concreta. Maria Eduarda Rodrigues, do 8º ano do Colégio Batista Brasil Vila Velha, conta que a leitura virou um espaço de pausa e descoberta na rotina dela. Um dos livros citados por ela que mais a marcou foi “Se pudesse contar as estrelas”, de Becca Mackenzie, que mistura fantasia com reflexões sobre fé, desafios e relações humanas. Para Maria Eduarda, ler não é só entretenimento, é também aprender sobre atitudes e situações do cotidiano. Na escrita, o efeito é direto: o vocabulário cresce, as ideias fluem com mais facilidade, e o interesse em produzir textos surge sem muito esforço. 

Já no Ensino Médio, a estudante Lara Oliveira Boschetti, do Colégio Batista Mineiro BH – Floresta/Séries Finais, vê a leitura como algo que amplia repertório e afasta a superficialidade. Para ela, o contato com autores diferentes ajuda a construir argumentos mais sólidos e organizar melhor as ideias na hora de escrever. 

Lara destaca ainda que essa habilidade não serve só para o Enem e/ou vestibular, mas para a vida, para a comunicação, para tomar decisões, para interpretar o mundo. A ficção, em especial, abre espaço para refletir sobre desigualdade, preconceito e justiça a partir de pontos de vista diferentes. 

No fim, todas essas falas se conectam em um ponto: ler e escrever não são só habilidades técnicas, são formas de construir pensamento, ampliar visão de mundo e desenvolver autonomia. A RBE caminha dia após dia para que cada estudante encontre na leitura não uma obrigação, mas um caminho de descoberta. É nesse trajeto, entre escola, biblioteca, professores e estudantes, que a leitura vai deixando de ser conteúdo e se tornando experiência.  

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