26 de janeiro de 2026

Antes do primeiro sinal soar: a neurociência por trás do retorno às aulas

Entenda como a neurociência explica o impacto da rotina, do sono e da alimentação no retorno às aulas e veja dicas práticas para um início de ano mais equilibrado e produtivo.

Texto escrito por Dra. Ísis T. Gonçalves Lima 

As mochilas estão sendo preparadas, os tênis limpos, e o cheiro de livros e cadernos novos está no ar. Mas, enquanto organizamos e etiquetamos, há uma ferramenta fundamental que precisa de “calibragem” antes do primeiro sinal soar: o cérebro de nossos estudantes. 

Como neurocientista e pedagoga, digo com frequência que as férias são essenciais para a consolidação de memórias, tempo com familiares e amigos e o merecido descanso. Em um mundo onde a produtividade é frequentemente exaltada, pode parecer contraintuitivo sugerir que o “fazer nada” tem seu valor, especialmente durante as férias das crianças, como eu inclusive já disse em outro artigo, já aqui publicado (“O valor do ócio nas férias: um convite à criatividade”). No entanto, o retorno também exige uma estratégia, afinal o cérebro humano ama padrões e previsibilidade. A mudança brusca do “modo férias” (dormir tarde, horários livres) para o “modo escola” pode gerar o que chamamos de jet lag social. 

Para evitar o impacto e garantir que todos os estudantes comecem o ano com o “pé direito”, preparamos um guia de recalibragem neurocientífica e pedagógica. 

1. O relógio biológico: a base de tudo 

Não adianta pedir foco a um cérebro sonolento. Durante as férias, é comum que o ciclo circadiano (nosso relógio interno) se atrase. Se tentarmos acordar a criança às 6h da manhã no primeiro dia de aula, quando ela estava acordando às 10h, teremos um cérebro “em greve”. 

A estratégia dos 15 minutos: comece hoje. A cada noite, antecipe a hora de dormir em 15 a 20 minutos e faça o mesmo com a hora de acordar. Isso ajusta a produção de melatonina (hormônio do sono) e cortisol (hormônio do despertar) de forma gradual. Dica de ouro: Pela manhã, exponha a criança imediatamente à luz solar natural. A luz é o principal sinal para o cérebro de que o dia começou, ativando o estado de alerta. 

2. Higiene do sono e telas

A luz azul emitida por celulares e tablets inibe a melatonina, “enganando” o cérebro a pensar que ainda é dia. 

Regra de ouro: Telas desligadas pelo menos uma hora antes de dormir. Troque o celular por leitura, um banho morno ou conversas calmas. O sono é onde a aprendizagem do dia é consolidada. Sem sono reparador, não há memória de longo prazo. 

3. Nutrição: o combustível do cérebro 

O cérebro consome cerca de 20% da energia do corpo. Enviar uma criança para a escola com apenas açúcar no sangue (biscoitos recheados, achocolatados muito doces) gera um pico de energia seguido de uma queda brusca, resultando em irritabilidade e falta de foco. 

O cardápio da atenção: proteínas e fibras – Ovos, queijos, frutas com casca e pães integrais liberam energia de forma lenta e constante.  

Hidratação  Um cérebro desidratado processa informações mais lentamente. A garrafinha de água é tão importante quanto o caderno. 

4. A rotina: o abraço da previsibilidade 

Para a pedagogia inclusiva, a rotina não é prisão; é segurança. A ansiedade diminui quando sabemos o que vai acontecer. 

Antecipação visual  Para crianças menores ou estudantes neurodivergentes, use quadros visuais ou agendas planners coloridas. Mostre o que vai acontecer na semana. Dica de ouro: criar o cantinho de estudos. O cérebro faz associações de lugar. Crie um espaço dedicado ao estudo, livre de distrações, bem iluminado e organizado. Isso “liga” o modo de concentração automaticamente ao sentar-se ali. 

5. Um olhar inclusivo: cada cérebro é único 

Como Coordenadora de Educação Inclusiva, reforço que cada estudante tem seu tempo. O retorno pode ser excitante para uns e assustador para outros. 

Valide as emoções: se houver medo ou ansiedade, não diminua ou invalide o estudante. Diga: “Eu entendo que você está nervoso(a), é normal sentir isso em novos começos. Vamos enfrentar isso juntos”. Se seu filho tem necessidades específicas, recomece o diálogo com a escola antes do primeiro dia. A parceria é o segredo do sucesso. 

Famílias, preparar a mochila é fácil. Preparar a mente, o espírito e o corpo exige paciência e constância. Vamos encarar este retorno não como uma obrigação, mas como a reabertura de um universo fascinante de descobertas e aprendizagens.  

Bom retorno! 

Ísis Lima é Coordenadora do Núcleo de Atenção Especializada (NAE) da Rede Batista de Educação 

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