20 de maio de 2026
Adultização: quando pulamos etapas e perdemos a infância
Em reflexão sobre os desafios da era digital, o professor Valseni Braga aborda os impactos da exposição precoce no desenvolvimento infantil e o papel da família, da escola e da sociedade na proteção das crianças
Nos últimos meses, a palavra “adultização” saiu do jargão acadêmico e entrou nas conversas de família. O gatilho foi um vídeo do youtuber Felca, que denunciou conteúdos com crianças performando temas e gestos de adultos nas redes. O assunto viralizou e chegou ao Congresso. O nome é novo para muita gente, mas o fenômeno é antigo: empurrar crianças para papéis, estéticas e expectativas que não pertencem à sua idade. Quando isso inclui sexualização, a fronteira deixa de ser moral e passa a ser legal. A Constituição e o ECA protegem a infância contra exploração, violência e opressão, e projetos recentes reforçam o cerco no ambiente digital.
O que está em jogo não é conservadorismo versus liberdade. É neurodesenvolvimento. A infância precisa de tempo, de jogo simbólico, de frustrações acompanhadas, de linguagem adequada, de gradualidade. Antecipar papéis adultos embaralha etapas cognitivas e afetivas e produz ruído na construção da identidade. Institutos e pesquisadores alertam há décadas para os efeitos da erotização precoce, para a pressão estética e para a transformação do corpo infantil em produto de audiência.
As plataformas aceleraram a vitrine. O algoritmo premia o que chama atenção, e a atenção, hoje, tem muitas vezes a forma de choque. Há notícia auspiciosa: o tema saiu do silêncio. O poder público começou a agir, com campanhas e propostas que exigem mais responsabilidade das plataformas e instrumentos de monitoramento para pais e responsáveis. Isso precisa caminhar junto a uma cultura de proteção no cotidiano escolar e doméstico.
O que a escola pode fazer, de modo concreto, sem transformar o assunto em propaganda de si mesma? Primeiro, educar a atenção. Letramento midiático não é luxo. Ensinar o que é engajamento, como funcionam métricas, quais são técnicas de persuasão e por que alguns conteúdos “viralizam” cria anticorpos cognitivos na criança e no adolescente. Segundo, educar limites. Regras de uso de celular e redes, combinadas com a família, protegem o tempo mental e a privacidade. Terceiro, educar valores. Respeito ao corpo, dignidade, linguagem apropriada para cada etapa — tudo isso precisa ser falado com naturalidade e firmeza. A própria BNCC indica competências socioemocionais como fator de proteção, quando traduzidas em práticas contínuas e não em campanhas ocasionais.
No universo confessional, a resposta ganha um horizonte adicional. Formar integralmente é equilibrar quatro dimensões. No corpo, ensinar cuidado, pudor, hábitos saudáveis e a diferença entre exposição e presença. Na mente, cultivar pensamento crítico para distinguir entretenimento de exploração e autonomia frente à pressão de pares e tendências. Nas emoções e na ética, treinar regulação, empatia e coragem para dizer não quando algo viola fronteiras. No espírito, sustentar um propósito que não se mede por likes, mas por verdade, honra e amor ao próximo. Esses pilares não são slogans. São trilhos que mantêm o desenvolvimento dentro do tempo certo.
Adultização não se vence apenas com leis, tampouco apenas com boa vontade. É uma tarefa combinada. Família presente, escola intencional, plataformas responsabilizadas, comunidade vigilante. Quando cada ator cumpre seu papel, a infância volta a ter o ritmo que a faz florescer. O objetivo não é blindar crianças do mundo, e sim introduzi-las ao mundo no tempo certo. O maior ato de amor, aqui, é devolver a cada etapa a sua própria dignidade. Criança não precisa parecer adulta para ser valiosa; precisa ser criança, inteira, no tempo precioso da infância.
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